terça-feira, outubro 09, 2007

CRONICANDO CHICO

Lendo uma crônica do Chico Buarque de Hollanda, acabei me transportando para uma situação que vivi. Ele contava um dia de praia em Capri, em que a disputa por um lugar ao sol é ferrenha e desigual diante dos americanos (nos idos anos 70) e agora também dos japoneses que invadem os locais turísticos com suas malas metálicas. Bem, o Chico passou o dia para conseguir uma cadeira, uma bóia e tudo aquilo que havia pago (pois é, a praia é paga) para usufruir e quando conseguiu, já estava na hora de sair pois a praia fecha. Lembrei-me de uma viagem que fiz de carro de Orlando para Miami pela BR 101 deles, ou seja, aquela que vai pela praia. A certa altura queria parar para tomar um banho de mar e vinha uma praia que era proibida a entrada pois era do condomínio fechado e vinha outra que era paga (pode?) e outra fechada porque era um hotel. Finalmente, uma praia aberta ao público, sem pagar e sem condomínio ou hotel. Foi uma delícia, a água estava morna o mar era calmo e delicioso. Fiquei dentro d’água o quanto pude para poder descontar toda a espera e procura e depois de me refrescar bastante segui o caminho. Certa vez também, fui ao Lido em Veneza e era inverno. Estava louca para ver o mar, a praia, assim como fazemos aqui no Brasil, sentar na areia e ficar vendo o mar, mas, minha surpresa foi a mesma do Chico. A praia fecha. Fecha no inverno também. Então voltei com a sensação triste de que lá não se namora na areia e nem se vai à praia de noite apenas para olhar o mar. Nós brasileiros somos mesmo privilegiados nesse ponto. Nossa legislação que prestigia o povo com a liberdade do uso do espaço das praias é fantástica. Ainda que alguns cidadãos tentem intimidar outros de usarem a praia na ânsia de terem uma praia particular, nossa lei não permite praias particulares. E, podemos olhar o mar e ir a praia a qualquer hora. Escrever na areia, pensar poemas, olhar o infinito, sentados na areia e todas as coisas que só fazemos quando a praia está quase vazia. A grande maioria das praias para eles é um negócio imobiliário, usado para ganhar dinheiro, seja no bar de Capri que o Chico foi, no Lido em Veneza ou nos Hotéis e condomínios dos EUA. Aqui no Brasil, essa terra abençoada por Deus (por todos os Deuses de todos os credos) podemos ir a praia quando e onde queremos, namorar as ondas e beijar a brisa do vento que sopra do oceano, sem nenhuma proibição de olhar, sentir, beijar ou namorar. Em 1986, nos EUA, um escritor americano me perguntava o que as praias do Brasil tinham de tão especial. Não soube responder no momento, pois meu inglês era parco. Mas, as praias no Brasil são lindas, cheias de charme, de areia branca ou não, com mar bravo ou calmo, largas ou estreitas, temos de tudo mas o principal é que elas estão de braços abertos à todos.